quinta-feira, 21 de março de 2013

Critérios para a Biodiversidade?


Critérios para a Biodiversidade?

Hipoteticamente, em dois ecossistemas localizados em áreas distintas há, em cada um, pelo menos uma espécie ameaçada de extinção, de acordo com o Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, produzido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente.


 Fonte: Colecionador de Conchas, 2010.

Fonte: Canadian Museum of Nature n.d.
Nome científico: Megalobulimus lopesi
Nome popular: Caracol-gigante-da-boracéia
Status de Ameaça:
Brasil (MMA, IN 03/03): Ameaçada.
(Machado et al, 2008.)
Nome científico: Myrmecophaga tridactyla
Nome popular: Tamanduá-bandeira
Status de Ameaça: Brasil (MMA, IN 03/03): Ameaçada.
 
(Chiarello, 2008)

Caso a conservação da biodiversidade dessas áreas dependesse, entre outras ações, da proteção dessas espécies e fosse possível escolher apenas uma delas para atuar em prol da sua proteção, qual seria escolhido? Que critérios seriam utilizados?
Aprendemos que biodiversidade consiste, basicamente, na “diversidade de vida em uma dada área”, mas não é simples assim.  O conceito de biodiversidade é considerado por alguns autores como sendo de caráter pseudocognitivo, pois sua interpretação varia bastante e de acordo com o grupo que o interpreta. Para os taxonomistas, por exemplo, as espécies não tem o mesmo valor em função do grau de diferenciação entre os organismos, estimado pela utilização da hierarquia da classificação taxonômica que verifica a diversidade genética entre taxa. (Araújo, 1998). 
 
Já o conceito de biodiversidade, para os ecologistas, abrange questões como qualidade do ambiente e processos ecossistêmicos, considerando as espécies chave, as de maior ocorrência e sua função no ecossistema, por exemplo. Ainda, algumas espécies podem ser consideradas mais importantes que outras devido a sua maior ou menor contribuição para a biodiversidade de um ecossistema. (Christie et al, 2006) Mas, e para o público em geral?
 
Um estudo realizado por Christie (et al, 2006) em Cambridgeshire (Inglaterra) e Northumberland (Escócia) apontou resultados interessantes, que constatam diferenças entre os conceitos ecológicos e antropocêntricos, comentados a seguir.
Um dos fatores que dificultam o exercício da valoração da biodiversidade consiste justamente na má compreensão do público sobre este conceito, tornando necessária a utilização de linguagem apropriada e utilização de recursos audiovisuais para facilitar o entendimento.

Os critérios do publico não são considerados ecologicamente importantes para a conservação da biodiversidade, pois estão associados, especialmente, aos benefícios diretos que podem trazer para o publico, como por exemplo, os insumos para a indústria farmacêutica e os serviços ecossistêmicos que exercem impacto direto sobre os seres humanos e o seu bem-estar. Ainda, o carisma, a importância local e a familiaridade que o publico tem com as espécies, são outros critérios fortemente levados em consideração.
 
Entre os resultados da pesquisa, constatou-se que a há preocupação com o incremento da biodiversidade, mas não em como esse incremento pode ser alcançado. Neste sentido, grande parte dos entrevistados mostrou-se disposta a pagar taxas e impostos para essas melhorias e alguns poucos defendem que os valores devem ser pagos apenas por aqueles que degradam o meio ambiente.
 
Porém, um dos resultados mais interessantes é que o público entrevistado se mostrou disposto a apoiar as políticas que visam a recriação de ecossistemas e a recuperação de espécies raras, ao invés de apoiarem as políticas que objetivem retardar o tempo que leva para que espécies sejam localmente extintas, desacelerando o seu declínio. Tal postura pode ser fundamentada pelo principio da aversão à perda, onde as perdas são mais valorizadas que os ganhos, de acordo com Kahneman (et al 1991 apud Christie et al, 2006).


Referências Bibliográficas

Araújo M 1998, Avaliação da biodiversidade em conservação, Silva Lusitana, vol. 6, n°1, pp.19-40.

Canadian Museum of Nature n.d., Mammals – Giant Anteater, acessado em 20 de março de 2013, http://nature.ca/notebooks/english/giantant_p7.htm

Chiarello A G, Aguiar A M S, Cerqueira R, Melo, F R, Rodrigues F H G, Silva V M F 2008, ‘Mamíferos’, in Angelo Barbosa Monteiro Machado, Gláucia Moreira Drummond & Adriano Pereira Paglia (eds) Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, vol. 2, 1 ed., MMA, Brasilia.

Christie M, Hanley N, Warren J, Murfy K, Wright R & Hyde T 2006, Valuing the diversity of biodiversity, Ecological Economics, vol. 58, pp. 304– 317 

Colecionador de Conchas 2010, Megalobulimus lopesi, acessado em 20 de março de 2013, http://colecionadordeconchas.blogspot.com.br/2010/12/megalobulimus-lopesi.html

Machado A B M, Brescovit A D, Mielke O H, Casagrande M, Silveira F A, Ohlweiler F P, Zeppelini D, De Maria M & Wielovh A H 2008, ‘Invertebrados Terrestres’, in Angelo Barbosa Monteiro Machado, Gláucia Moreira Drummond & Adriano Pereira Paglia (eds) Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, vol. 1, 1° ed., MMA, Brasilia.

 

 

 

 

 

 

 

4 comentários:

  1. Olá Marília,
    Olá colegas,

    Antes de mais, tenho a dizer que todas as postagens que verifiquei nos diferentes blogues da turma, todas elas, me pareceram conter aspetos interessantes.
    No caso do trabalho realizado pela Marília, destaco, entre outros aspetos que poderia destacar, a chamada de atenção para a noção de biodiversidade como sinónimo de redução acelerada da diversidade da vida, onde apresentou exemplos de espécies ameaçadas: Megalobulimus lopesi e do Myrmecophaga tridactyla.
    Algumas estimativas apontam que aproximadamente 20% das espécies descritas na Terra estão no Brasil (podendo destacar-se 55 000 espécies de plantas superiores; 650 espécies de mamíferos; 1 801 de aves; 825 de anfíbios; 693 de répteis e 2 835 de peixes de água doce – dados: Biota Minas, 2009), país que é considerado um dos 17 “megadiversos”. O Brasil integra, a nível mundial, duas das áreas prioritárias para conservação, ou seja, duas áreas de alta biodiversidade e ameaçadas no mais alto grau, falo da mata atlântica e do cerrado.

    Todos sabemos que a biodiversidade é o resultado de uma longa evolução biológica que produziu continuamente novas espécies; neste planeta seres vivos desaparecem, assim como, outros animais e vegetais, obviamente desconhecidos nascem. A meia vida média de uma espécie é de um milhão de anos, e 99% das espécies que já viveram na Terra estão hoje extintas. “Registros fósseis mostram que mudanças drásticas no ambiente constituem a maior causa de extinção de espécies”. (Signor, 1990).

    Em Portugal Continental, estão “classificadas 72 espécies de mamíferos (60 protegidas e 17 ameaçadas), 28 espécies de reptéis (todas protegidas e 7 ameaçadas), 16 espécies de anfíbios (todas protegidas e 2 ameaçadas) e 33 espécies de peixes dulçaquícolas e migradores (todas protegidas e 21 ameaçadas)”. As tendências ao nível da fauna são preocupantes, uma vez que não houve uma redução efectiva do número de espécies ameaçadas num período de 15 anos (1990-2005)” (ptMA, 2013)

    Meus caros, como sabem, vivemos num Planeta em que a riqueza de fauna e flora tem vindo a decrescer essencialmente por ação antrópica, havendo a necessidade de se tomarem novos rumos, novos comportamentos quanto à relação do Homem com a Natureza. Neste sentido, a Educação Ambiental (EA) / Educação para o Desenvolvimento Sustentável (EDS) constitui a condição prévia para qualquer mudança de atitude e comportamento (aspeto que vem servindo de alerta em documentos como “o nosso futuro comum”), podendo levar o Homem a compreender e amar o quadro natural e construído de que depende e em que se integra, e preservar o que é de todos.
    A EA/EDS destina-se para além da escola, à comunidade local. No artigo “Trends and Dilemmas Facing Environmental Education in Portugal: From Environmental Problem Assessment to Citizenship Involvement” (Schmidt, Nave, O'Riordanc e Guerra, 2011), foram analisados resultados de um inquérito aplicado a cerca de 15 000 estabelecimentos de ensino portugueses para avaliar a situação dos projetos de EA/EDS em Portugal. Nesse estudo demonstram que EA/EDS ocorre basicamente em escolas e está aparentemente confinada aos muros escolares. Esses projetos raramente envolvem a comunidade, e os projetos de EA/EDS abrangendo toda a comunidade académica (por exemplo, professores, auxiliares educativos, estudantes e famílias dos alunos) são muito difíceis de encontrar. O mesmo é válido no que concerne a projetos EA/EDS diretamente promovidos ou patrocinados por organizações não-escolares, que raramente incluem a comunidade vizinha ou outros alvos não-escolares. No que respeita a outra caraterística desses projetos e iniciativas de EA/EDS é a sua efemeridade. (Schmidt, Nave, O'Riordanc e Guerra, 2011)

    É imperativo que as políticas ambientais se façam acompanhar de estratégias concretas, no âmbito da EA / EDS, que envolvam toda a comunidade escolar e não-escolar, com objetivo de atingir as metas a que se propõem.

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    1. Referências bibliográficas:

      Biota Minas: diagnóstico do conhecimento sobre a biodiversidade no Estado de Minas Gerais – subsídio ao Programa Biota Minas. / Editores Gláucia Moreira Drummond, Cássio Soares Martins, Magda Barcelos Greco, Fábio Viera; equipe técnica Amanda Alves dos Santos... [et al.] ; projeto gráfico Túlio Linhares, Rogério Fernandes; revisão [de] Célia Arruda; revisão final [de] Carlos Fellipe Mendes Mariz. – Belo Horizonte: Fundação Biodiversitas, 2009. Acedido a 24.03.2013, em http://www.biodiversitas.org.br/biotaminas/publicacao/biotaminas.pdf
      ptMA (2013). Portal Millennium Ecosystem Assessment. Acedido a 21.03.2013, em http://ecossistemas.org/
      Schmidt, L.; Nave, J.; O'Riordanc, T. e Guerra, J. (2011). “Trends and Dilemmas Facing Environmental Education in Portugal: From Environmental Problem Assessment to Citizenship Involvement”. Journal of Environmental Policy & Planning. 13:2. Pp 159-177. Acedido a 24.03.2013, em http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/1523908X.2011.576167
      SIGNOR, P.W. 1990. The geological history of diversity. Annual Review of
      Ecology and Systematics, n. 21, p. 509-539.

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  2. Cara Marília:
    A pergunta que abre o teu post é pertinente e eu confesso-te que teria dificuldade em responder.
    Há como sabes (das pesquisas que temos feito e do que nos têm ensinado) várias definições de biodiversidade sendo uma a usada no vídeo colocado na plataforma: “A diversidade de organismos vivos e das suas comunidades, as chamadas biocenoses (população equilibrada de seres vivos em determinada área natural), incluindo os processos ecológicos e evolutivos que suportam essa diversidade”. Este é uma boa definição, dinâmica, de um conceito em constante evolução.
    Todos temos tendência para considerar umas espécies mais importantes que outras, devido a vários fatores (como dizes e bem): maior ou menor contribuição para o ecossistema, maior ocorrência, importância local e carisma, familiaridade com as espécies, etc.
    Há autores que defendem que a maioria das espécies são desconhecidas, não só para o público em geral como até para os cientistas encarregados de estudar e classificar os seres vivos, pois a enorme diversidade ambiental contempla os vertebrados e as plantas superiores fortemente minoritários perante a proliferação de seres de pequeno e muito pequeno tamanho, representados por invertebrados, plantas inferiores e microrganismos. Para termos uma ideia, estima-se que há 43 000 espécies descritas de vertebrados, mas só os insetos alcançam ou superam o milhão. Estimativas recentes estabelecem que existem 30 a 50 milhões de diferentes espécies. ( Juan Carlos Giacchi, FUCEMA-Fundação para la Conservación de las Espécies y Medio Ambiente)
    Perante esta diversidade biológica não admira que, compreensivelmente, nem todas sejam conhecidas dos especialistas, que normalmente se dedicam a estudar apenas uma ou várias espécies e não a sua totalidade o que seria impossível.
    Para os leigos o carisma e a importância local são muito importantes para o conhecimento e a defesa das espécies. Na minha região onde a fauna selvagem não comporta grandes carnívoros, o lince ibérico, praticamente extinto, é objeto de grande interesse e quase todos os alentejanos opinam sobre a necessidade da sua reintrodução. Existem vários projetos, financiados por fundos comunitários, que são seguidos com bastante interesse pela sociedade civil, pois o lince é uma referência importante para a biodiversidade regional e exerce grande carisma sobre as estruturas e os indivíduos a nível local.
    Manuel Mestre

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  3. Boa noite Marília e colegas!
    Antes de mais adorei a abordagem que fizeste ao conceito de Biodiversidade e é com bastante gosto que elaboro este comentário.
    A tua reflexão centrou-se nas várias interpretações do conceito de biodiversidade, desde os vários ramos da biologia até ao público em geral, sendo bastante interessantes os dados do estudo de Christie et al (2006), que demonstram o caráter antropocêntrico atribuído à biodiversidade e aos ecossistemas em geral. Sobre o mesmo estudo ainda, é curioso o facto da maioria dos cidadãos revelarem valores positivos para a biodiversidade, mostrando-se no entanto indiferentes na forma em como esta é preservada e conservada.
    Outro aspeto bem interessante que referiste, sobre o mesmo estudo, é a má compreensão que o público tem do conceito de biodiversidade que influencia a sua interpretação. No meu entender a informação existe, mas a forma como é transmitida ao comum dos cidadãos é que não é a melhor. Se a população não se identificar com a temática, não vai ter uma ação pró-ativa no sentido de contribuir para a resolução dos problemas. A educação ambiental tem papel fundamental neste processo, através da transmissão da informação e da implantação de uma metodologia que envolva todos os agentes socias, em particular os cidadãos.

    Referências bibliográficas
    Christie M, Hanley N, Warren J, Murfy K, Wright R & Hyde T 2006, Valuing the diversity of biodiversity, Ecological Economics, vol. 58, pp. 304– 317

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