As ações humanas que causam modificações
relevantes nos habitats configuram-se como grandes ameaças à biodiversidade.
De acordo com Novacek
& Clelan (2001), há consenso na comunidade científica de que a atual
degradação massiva de habitat e a extinção de espécies da
biota é sem precedentes e está ocorrendo em um ritmo catastroficamente
acelerado. Uma estimativa alarmante é que até meados do século 21, 30% de todas
as espécies podem ser exterminadas. Nos últimos 400 anos, estima-se que mais de
300 vertebrados foram extintos, sendo que atualmente cerca de 20% das espécies
de mamíferos, 12% das espécies de aves e 32% das espécies de anfíbios
encontram-se ameaçadas de extinção, considerando que esse aumento na taxa de
perda de biodiversidade é consequencia direta da ação humana (Proença et al,
2009). No Brasil, o bioma que apresenta o maior número de espécies (flora e
fauna) ameaçadas de extinção é a Mata Atlântica, seguido pelo Cerrado e Amazônia
(IBGE, 2012).
Qualquer fator natural ou
antropogênico que direta ou indiretamente cause uma alteração no ecossistema é
considerado um promotor de alterações, cuja escala varia de acordo com a
extenção e a duração do impacto. Os promotores de alterações indiretos são
demográficos, econômicos, sociopolíticos, científicos e tecnológicos ou
culturais e religiosos, enquanto que os promotores de alterações diretos são
físicos, químicos e biológicos. Porém, a mudança atual é liderada por questões
antropogênicas indiretas, sendo que nos ultimos 50 anos as atividades humanas
influenciaram, com maior rapidez, nas alterações da biodiversidade,
intensificando a sua perda. Entre 1950 e 2000, calcula-se que a atividade econômica
global aumentou quase sete vezes, sinalizando o crescente consumo de serviços dos ecossistemas, do consumo per
capita e o crescimento da população (Millennium, 2005).
Algumas das ameaças mais
importantes para a perda de biodiversidade e para as mudanças de serviços
ecossistêmicos são: alterações no habitat causadas por perda de recifes de
coral, modificação física de rios, mudanças no uso da terra, entre outros; as
alterações climáticas; a superexploração (que muito atinge os mares e seus
estoques pesqueiros); a poluição e as espécies exóticas invasoras (Millennium, 2005). Em Portugal,
destacam-se as alterações ao uso do solo, a sobre-exploração de recursos, o
aumento da rede viária, a poluição, a ocorrência de fogos, a introdução de
espécies exóticas e o efeito das alterações climáticas a longo prazo (Proença
et al, 2009). Cabe ressaltar que em Portugal, quase todos os promotores de
alterações atuam em escala nacional (Domingos et al, 2009).
Em relação ao ambiente
costeiro, as alterações de habitat e a poluição são consideradas as ameaças
mais representativas à biodiversidade e para o ambiente marinho, a sobreexploração
dos recursos. Em ambos os casos, as tendências desses impactos são de
crescimento progressivo. Por exemplo, ao considerar 75% da pesca de espécies
marinhas comerciais, 50% são totalmente exploradas e 25% são consideradas
sobre-exploradas, a nivel mundial. Ainda em um contexto global, um grande
número de espécies foram incluídas na lista vermelha das espécies ameaçadas
(IUCN) devido à intensa pesca predatória (Millennium, 2005). No cenário nacional, o Brasil segue a mesma lógica, sendo que as ameaças ao ambiente marinho estão também relacionadas ao turismo desordenado e a introdução de espécies exóticas, sendo que ambas contribuem para gerar alterações nos ecossistemas e consequentemente para a perda de biodiversidade marinha. Quanto às aguas continentais, pode-se destacar a construção de barragens e ainda, o lançamento de esgoto em corpos d´água (Amaral & Jablonski, 2005).
No Brasil, entre os
principais promotores que alteram a rica biodiversidade do país destacam-se: a
destruição de habitat, o desmatamento, as queimadas, a exploração madeireira, a
conversão de campos em pastagens, a construção
de represas, a poluição de rios e oceanos, a chegada de espécies
invasoras, a caça, a pesca predatória e o tráfico e comércio de animais e
plantas silvestres (IBGE, 2012). Entre essas ameaças, a caça (para o comércio e
para a subsistência) é a segunda maior ameaça à fauna brasileira (Renctas, 2001).
Quanto ao comércio ilegal de fauna silvestre, destacam-se
quatro modalidades: para colecionadores particulares e zoológicos, cuja maior
procura são justamente dos animais mais ameaçados; biopirataria, ou seja, animais utilizados para
fins científicos; a comercialização para pet shops, que se configura como a modalidade que mais incentiva o tráfico de animais silvestres no
Brasil; e os produtos da fauna que são utilizados para a produção de artesanatos, como couros, penas,
garras etc (Renctas, 2001).
Diante dessa
realidade, constata-se que o tráfico de animais silvestres, além de ser uma
atividade ilegal e altamente destrutiva e cruel contribui diretamente para a perda
da biodiversidade, pois vulnerabiliza diversas espécies da fauna silvestre
brasileira, ameaçando-as de extinção.
Amaral
A C & Jablonski S 2005, Conservação da biodiversidade marinha e costeira no
Brasil, Megadiversidade, vol. 1, n°1,
pp. 43-51.
Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) 2012, Indicadores de Desenvolvimento
Sustentável Brasil 2012, acessado em 09 de abril de 2013, http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/06/uso-de-fertilizante-no-brasil-mais-que-dobra-em-8-anos-diz-ibge.html
Millennium
Ecosystem Assessment 2005, pp. 1-41. In Ecosystems
and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute,
Washington, D.C.
Novacek M & Cleland E E 2001, The
current biodiversity extinction event: Scenarios for mitigation and recovery, PNAS, vol. 98, n° 10, pp. 5466–5470.
Proença V,
Queiroz C F, Araújo M & Pereira H M 2009, ‘Biodiversidade’, in pereira
M H, Domingos T, Vicente L & Proença V (eds) Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Resultados da Avaliação para Portugal
do Millennium Ecosystem Assessment, Escolar Editora, Lisboa.
Boa tarde Marilia,
ResponderExcluirComo sempre as suas matérias enriquecem a nossa visão sobre os assuntos em foco, dando-nos a conhecer a realidade atual do Brasil num contributo muito útil ao conhecimento de toda a nossa pequena comunidade académica. Ao ler o seu presente trabalho sobre as ameaças à biodiversidade não pude contudo deixar de relevar a sua afirmação de que a " atual mudança é liderada por questões antropogénicas indiretas ..." e aqui tornaram-se-me presentes questões como a da sobre exploração dos recursos naturais, como por exemplo a sobrepesca, que estão bem na frente das maiores ameaças à biodiversidade e em que a ação antrópica é direta. Não querendo enveredar por um discurso centrado na maior ou menor importancia das ameaças (uma vez que o verdadeiro alcance de algumas atitudes e comportamentos antrópicos neste campo ainda pode estar por conhecer e avaliar, como é o caso da polémica em torno da acidificação dos oceanos)parece-me, no entanto, que com este pequeno comentário se torna óbvio que o meu entendimento neste caso é de colocar a influencia direta do homem no cerne do problema e não primeiramente os seus reflexos. Parecendo de somenos importância parece-me que esta questão assumira relevância no escopo da determinação da atitude e comportamento antrópicos e não apenas na mitigação dos seus efeitos, como parte da problemática de conservação da biodiversidade, Que lhe parece colega ?
Caríssimo Vitor:
ResponderExcluirCompreendo suas colocações e o seu raciocínio, e agradeço por fomentar esse interessante debate.
Baseado na bibliografia que tenho estudado, especialmente Millennium (2005), entendo com clareza que a afirmação de que a "atual mudança é liderada por questões antropogênicas indiretas ..." é uma verdade. Em seguida, tentarei explicar o porquê.
Inicialmente é preciso estabelecer que os promotores de alterações indiretos são demográficos, econômicos, sociopolíticos, científicos e tecnológicos ou culturais e religiosos, e os promotores de alterações diretos são físicos, químicos e biológicos.
Entendo que são os promotores indiretos que norteiam, que fomentam e que se manifestam enquanto ações antopêgenicas diretas. Em outras palavras, os promotores diretos são reflexo e consequencia dos promotores indiretos.
Alguns exemplos dados por Millennium (2005) que podem ajudar a compreender essas afirmações: a população e seu estilo de vida, e a tecnologia existente e utilizada (fatores indiretos: demográfico, cultural, tecnológico) são fatores que influenciam na tomada de decisão de, por exemplo, aumentar a captura de peixes de forma insustentável (promotor direto: sobre-exploração) visando a segurança alimentar e o incremento no âmbito da economia; a demanda internacional por madeira (promotor indireto: econômico, cultural, sociopolitico) pode acarretar na perda da cobertura florestal de deteminada região (promotor direto); o aumento da população mundial e do consumo per capita (promotores indiretos: demográfico e economico) acarreta em maior consumo dos serviços ecossistêmicos que, conseguentemente, acarreta em maior pressão sobre os ecossistemas e sobre a biodiversidade (promotores diretos); o desenvolvimento e a difusão de tecnologias (promotores indiretos: tecnologia e ciencia, econômico) podem levar tanto à maior eficiencia na utilização de recursos como também aumentar a exploração desses recursos (promotores diretos).
O que lhe parece essa linha de raciocínio?
Millennium Ecosystem Assessment 2005, pp. 1-41. In Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, D.C.
Boa tarde colegas,
ResponderExcluirantes de mais, parabéns pelo post e comentários, que me despertaram imediatamente a curiosidade.
Também partilho da mesma opinião que voçês. Tal como a Marília postou, "os promotores diretos são reflexo e consequência dos promotores indiretos", independentemente da maior ou menor importância que cada "driver" tem, pois o fim é o mesmo, a destruição da biodiversidade.
A influência dos valores, comportamentos e atitudes antrópicos, enfatizados pelo Vítor, assumem, no meu entender, uma pertinência que é muitas vezes subvalorizada, pela influência "direta" que acabam por ter no contexto geral, de instigação dos promotores diretos, assim como no caráter puramente mitigador da maioria das políticas ambientais existentes para a resolução desta problemática que é a perda da biodiversidade.