sexta-feira, 12 de abril de 2013

Algumas das ameaças à biodiversidade


As ações humanas que causam modificações relevantes nos habitats configuram-se como grandes ameaças à biodiversidade.

De acordo com Novacek & Clelan (2001), há consenso na comunidade científica de que a atual degradação massiva de habitat e a extinção de espécies da biota é sem precedentes e está ocorrendo em um ritmo catastroficamente acelerado. Uma estimativa alarmante é que até meados do século 21, 30% de todas as espécies podem ser exterminadas. Nos últimos 400 anos, estima-se que mais de 300 vertebrados foram extintos, sendo que atualmente cerca de 20% das espécies de mamíferos, 12% das espécies de aves e 32% das espécies de anfíbios encontram-se ameaçadas de extinção, considerando que esse aumento na taxa de perda de biodiversidade é consequencia direta da ação humana (Proença et al, 2009). No Brasil, o bioma que apresenta o maior número de espécies (flora e fauna) ameaçadas de extinção é a Mata Atlântica, seguido pelo Cerrado e Amazônia (IBGE, 2012).
Qualquer fator natural ou antropogênico que direta ou indiretamente cause uma alteração no ecossistema é considerado um promotor de alterações, cuja escala varia de acordo com a extenção e a duração do impacto. Os promotores de alterações indiretos são demográficos, econômicos, sociopolíticos, científicos e tecnológicos ou culturais e religiosos, enquanto que os promotores de alterações diretos são físicos, químicos e biológicos. Porém, a mudança atual é liderada por questões antropogênicas indiretas, sendo que nos ultimos 50 anos as atividades humanas influenciaram, com maior rapidez, nas alterações da biodiversidade, intensificando a sua perda. Entre 1950 e 2000, calcula-se que a atividade econômica global aumentou quase sete vezes, sinalizando o crescente consumo  de serviços dos ecossistemas, do consumo per capita e o crescimento da população (Millennium, 2005).

Algumas das ameaças mais importantes para a perda de biodiversidade e para as mudanças de serviços ecossistêmicos são: alterações no habitat causadas por perda de recifes de coral, modificação física de rios, mudanças no uso da terra, entre outros; as alterações climáticas; a superexploração (que muito atinge os mares e seus estoques pesqueiros); a poluição e as espécies exóticas invasoras (Millennium, 2005). Em Portugal, destacam-se as alterações ao uso do solo, a sobre-exploração de recursos, o aumento da rede viária, a poluição, a ocorrência de fogos, a introdução de espécies exóticas e o efeito das alterações climáticas a longo prazo (Proença et al, 2009). Cabe ressaltar que em Portugal, quase todos os promotores de alterações atuam em escala nacional (Domingos et al, 2009).
Em relação ao ambiente costeiro, as alterações de habitat e a poluição são consideradas as ameaças mais representativas à biodiversidade e para o ambiente marinho, a sobreexploração dos recursos. Em ambos os casos, as tendências desses impactos são de crescimento progressivo. Por exemplo, ao considerar 75% da pesca de espécies marinhas comerciais, 50% são totalmente exploradas e 25% são consideradas sobre-exploradas, a nivel mundial. Ainda em um contexto global, um grande número de espécies foram incluídas na lista vermelha das espécies ameaçadas (IUCN) devido à intensa pesca predatória (Millennium, 2005).

No cenário nacional, o Brasil segue a mesma lógica, sendo que as ameaças ao ambiente marinho estão também relacionadas ao turismo desordenado e a introdução de espécies exóticas, sendo que ambas contribuem para gerar alterações nos ecossistemas e consequentemente para a perda de biodiversidade marinha. Quanto às aguas continentais, pode-se destacar a construção de barragens e ainda, o lançamento de esgoto em corpos d´água (Amaral & Jablonski, 2005).

No Brasil, entre os principais promotores que alteram a rica biodiversidade do país destacam-se: a destruição de habitat, o desmatamento, as queimadas, a exploração madeireira, a conversão de campos em pastagens, a construção  de represas, a poluição de rios e oceanos, a chegada de espécies invasoras, a caça, a pesca predatória e o tráfico e comércio de animais e plantas silvestres (IBGE, 2012). Entre essas ameaças, a caça (para o comércio e para a subsistência) é a segunda maior ameaça à fauna brasileira (Renctas, 2001).

 De acordo com Renctas (2001), o comércio ilegal de vida silvestre (fauna, flora e produtos) movimenta entre 10 e 20 bilhões de dólares por ano em todo o mundo e a participação do Brasil representa valores entre 5 a 15% desse total. Em uma projeção estatística realizada pela Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres – Renctas chegou-se ao seguinte valor: no Brasil, 38 milhões de espécimes são retiradas da natureza por ano devido ao tráfico de animais silvestres. Ainda, é necessário ressaltar que ocorrem muitas perdas durante o processo de captura, transporte e comercialização dessas espécies sendo que para cada animal comercializado vivo, calcula-se que pelo menos 9 espécimes morreram.

Quanto ao  comércio ilegal de fauna silvestre, destacam-se quatro modalidades: para colecionadores particulares e zoológicos, cuja maior procura são justamente dos animais mais ameaçados;  biopirataria, ou seja, animais utilizados para fins científicos; a comercialização para pet shops, que se configura como a modalidade que mais incentiva o tráfico de animais silvestres no Brasil; e os produtos da fauna que são utilizados para a produção de  artesanatos, como couros, penas, garras etc (Renctas, 2001).
Diante dessa realidade, constata-se que o tráfico de animais silvestres, além de ser uma atividade ilegal e altamente destrutiva e cruel contribui diretamente para a perda da biodiversidade, pois vulnerabiliza diversas espécies da fauna silvestre brasileira, ameaçando-as de extinção.

 Aproveito para recomendar o vídeo sobre o tráfico de animais silvestres no Brasil, produzido pela Renctas e disponível em http://www.youtube.com/watch?v=YQqch56SS-E 

 

Referências Bibliográficas:

Amaral A C & Jablonski S 2005, Conservação da biodiversidade marinha e costeira no Brasil, Megadiversidade, vol. 1, n°1, pp. 43-51.

 Domingos T, Saqueira E, Magalhães M, Valada T, Vicente L, Martins H & Ferreira, M 2009, ‘Promotores de Alterações nos Ecossistemas’, in pereira M H, Domingos T, Vicente L & Proença V (eds) Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Resultados da Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment, Escolar Editora, Lisboa.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2012, Indicadores de Desenvolvimento Sustentável Brasil 2012, acessado em 09 de abril de 2013, http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/06/uso-de-fertilizante-no-brasil-mais-que-dobra-em-8-anos-diz-ibge.html
Millennium Ecosystem Assessment 2005, pp. 1-41. In Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, D.C.

Novacek M & Cleland E E 2001, The current biodiversity extinction event: Scenarios for mitigation and recovery, PNAS, vol. 98, n° 10, pp. 5466–5470.

Proença V, Queiroz C F, Araújo M & Pereira H M 2009, ‘Biodiversidade’, in pereira M H, Domingos T, Vicente L & Proença V (eds) Ecossistemas e Bem-Estar Humano: Resultados da Avaliação para Portugal do Millennium Ecosystem Assessment, Escolar Editora, Lisboa.
 
Renctas 2001, 1º Relatório Nacional sobre o Tráfico de Fauna Silvestre, acessado em 09 de abril de 2013, http://www.renctas.org.br/files/REL_RENCTAS_pt_final.pdf
 

3 comentários:

  1. Boa tarde Marilia,
    Como sempre as suas matérias enriquecem a nossa visão sobre os assuntos em foco, dando-nos a conhecer a realidade atual do Brasil num contributo muito útil ao conhecimento de toda a nossa pequena comunidade académica. Ao ler o seu presente trabalho sobre as ameaças à biodiversidade não pude contudo deixar de relevar a sua afirmação de que a " atual mudança é liderada por questões antropogénicas indiretas ..." e aqui tornaram-se-me presentes questões como a da sobre exploração dos recursos naturais, como por exemplo a sobrepesca, que estão bem na frente das maiores ameaças à biodiversidade e em que a ação antrópica é direta. Não querendo enveredar por um discurso centrado na maior ou menor importancia das ameaças (uma vez que o verdadeiro alcance de algumas atitudes e comportamentos antrópicos neste campo ainda pode estar por conhecer e avaliar, como é o caso da polémica em torno da acidificação dos oceanos)parece-me, no entanto, que com este pequeno comentário se torna óbvio que o meu entendimento neste caso é de colocar a influencia direta do homem no cerne do problema e não primeiramente os seus reflexos. Parecendo de somenos importância parece-me que esta questão assumira relevância no escopo da determinação da atitude e comportamento antrópicos e não apenas na mitigação dos seus efeitos, como parte da problemática de conservação da biodiversidade, Que lhe parece colega ?

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  2. Caríssimo Vitor:

    Compreendo suas colocações e o seu raciocínio, e agradeço por fomentar esse interessante debate.

    Baseado na bibliografia que tenho estudado, especialmente Millennium (2005), entendo com clareza que a afirmação de que a "atual mudança é liderada por questões antropogênicas indiretas ..." é uma verdade. Em seguida, tentarei explicar o porquê.

    Inicialmente é preciso estabelecer que os promotores de alterações indiretos são demográficos, econômicos, sociopolíticos, científicos e tecnológicos ou culturais e religiosos, e os promotores de alterações diretos são físicos, químicos e biológicos.

    Entendo que são os promotores indiretos que norteiam, que fomentam e que se manifestam enquanto ações antopêgenicas diretas. Em outras palavras, os promotores diretos são reflexo e consequencia dos promotores indiretos.

    Alguns exemplos dados por Millennium (2005) que podem ajudar a compreender essas afirmações: a população e seu estilo de vida, e a tecnologia existente e utilizada (fatores indiretos: demográfico, cultural, tecnológico) são fatores que influenciam na tomada de decisão de, por exemplo, aumentar a captura de peixes de forma insustentável (promotor direto: sobre-exploração) visando a segurança alimentar e o incremento no âmbito da economia; a demanda internacional por madeira (promotor indireto: econômico, cultural, sociopolitico) pode acarretar na perda da cobertura florestal de deteminada região (promotor direto); o aumento da população mundial e do consumo per capita (promotores indiretos: demográfico e economico) acarreta em maior consumo dos serviços ecossistêmicos que, conseguentemente, acarreta em maior pressão sobre os ecossistemas e sobre a biodiversidade (promotores diretos); o desenvolvimento e a difusão de tecnologias (promotores indiretos: tecnologia e ciencia, econômico) podem levar tanto à maior eficiencia na utilização de recursos como também aumentar a exploração desses recursos (promotores diretos).

    O que lhe parece essa linha de raciocínio?


    Millennium Ecosystem Assessment 2005, pp. 1-41. In Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, D.C.

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  3. Boa tarde colegas,
    antes de mais, parabéns pelo post e comentários, que me despertaram imediatamente a curiosidade.
    Também partilho da mesma opinião que voçês. Tal como a Marília postou, "os promotores diretos são reflexo e consequência dos promotores indiretos", independentemente da maior ou menor importância que cada "driver" tem, pois o fim é o mesmo, a destruição da biodiversidade.
    A influência dos valores, comportamentos e atitudes antrópicos, enfatizados pelo Vítor, assumem, no meu entender, uma pertinência que é muitas vezes subvalorizada, pela influência "direta" que acabam por ter no contexto geral, de instigação dos promotores diretos, assim como no caráter puramente mitigador da maioria das políticas ambientais existentes para a resolução desta problemática que é a perda da biodiversidade.

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