quinta-feira, 18 de abril de 2013

Breve abordagem sobre conservação da biodiversidade


Estudos sinalizam que, em um futuro próximo, a maioria das causas que ameaçam a biodiversidade tendem aumentar ou a permanecer constantes ao invés de serem reduzidas. Dessa forma, torna-se cada vez mais necessário adotar medidas e implementar ações que visem a conservação da biodiversidade, onde os governos, organizações não governamentais, empresas privadas e comunidades se comprometam tanto a mitigar a perda da biodiversidade como  a apoiar o seu uso sustentável. Millennium (2005) ressalta ainda que os programas de gestão de recursos naturais que envolvem as comunidades, considerando seus saberes e envolvimento, ajudam a retardar a perda de biodiversidade e trazem benefícios diretos para as pessoas. Por outro lado, sinaliza que ações que garantem que as comunidades locais se beneficiem a partir de um ou mais produtos da biodiversidade foram mais bem sucedidas quando houve incentivo na inclusão dessas comunidades nas tomadas de decisão relacionadas à gestão da área, tornando essencial tanto a disponibilização de informação como o fomento à participação.
Há uma grande variedade de estratégias, programas, ações e comportamentos que podem ser adotados em prol da conservação da biodiversidade, como o incentivo à pesquisa, a aplicação de recursos financeiros, a legislação específica, a fiscalização eficiente, o consumo responsável, os acordos internacionais, os incentivos fiscais (ICMS ecológico, por exemplo), o fomento à participação nas tomadas de decisão, a realização de programas de educação e comunicação voltados à conservação, entre muitos outros (Millennium, 2005). Essas medidas são implementadas de acordo com dois tipos de abordagem: a baseada em habitat e as baseadas em espécie, sendo que essa última não é suficiente para a conservação do habitat.

Uma das estratégias para a conservação da biodiversidade, cuja abordagem é baseada em habitat, consiste na criação de áreas protegidas, cuja gestão deve ser voltada à sustentabilidade. Porém, Millennium (2005) adverte que o atual sistema de áreas protegidas não é suficiente para a conservação, pois as áreas precisam ser melhor localizadas e projetadas, além de ser necessário lidar com problemas como a falta de representatividade, os impactos da ocupação e das atividades  humanas dentro dessas áreas, o turismo realizado de forma insustentável, os impactos causados por espécies invasoras etc.

A Lei n° 9.985 de 18 de julho de 2000 institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), constituído pelo conjunto das unidades de conservação federais, estaduais e municipais, tem entre seus objetivos: contribuir para a manutenção da diversidade biológica e dos recursos genéticos no território nacional e nas águas jurisdicionais; proteger as espécies ameaçadas de extinção no âmbito regional e nacional; contribuir para a preservação e a restauração da diversidade de ecossistemas naturais; promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais; recuperar ou restaurar ecossistemas degradados; e valorizar econômica e socialmente a diversidade biológica. As unidades de conservação estão divididas em dois grupos, a saber: unidades de proteção integral, cujo objetivo central é preservar a natureza; e as unidades de uso sustentável, que visam compatibilizar a conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos (CCivil, 2000).
Quanto ao ambiente marinho, Amaral & Jablonski  (2005) ressaltam que as unidades de conservação não são suficientes em relação à quantidade e a extensão e em alguns casos ainda não tiveram seus respectivos planos de manejo elaborados ou implementados. Outro ponto que destaca é a precariedde da gestão pesqueira, onde ainda há baixa participação das comunidades envolvidas diretamente com essa atividade.

Em 1999, os participantes de um workshop realizado no Brasil traçaram algumas recomendações relacionadas à conservação da biodiversidade marinha: intensificar os estudos sobre o habitat artificial e suas implicações ao ambiente marinho, intensificar as pesquisas (levantamentos, avaliação de estoques, estudos oceanográficos), identificar novos recursos pesqueiros e e stoques e introduzir técnicas apropriadas para a redução da captura de fauna acompanhante, intensificar as ações e programas de educação ambiental, combater a pesca excessiva realizada pela atividade industrial e artesanal pesqueira (Amaral & Jablonski, 2005).
A exclusão dos indicadores de produção de pescado marítimo e continental da publicação que apresenta os indicadores de desenvolvimento sustentável do Brasil (IBGE, 2012) reflete a insuficiência de pesquisas nesta área, especialmente sobre a capacidade biológica relacionada aos estoques pesqueiros. Tal fato certamente compromete o acerto na definição de estratégias e medidas para a redução da perda da biodiversidade.

Após essa breve abordagem sobre as medidas de conservação da biodiversidade, conclui-se que muitos são os desafios a serem enfrentados e embora já haja um esforço a favor da redução da biodiversidade, ainda há muito onde avançar, tanto globalmente, como a nível nacional e para tanto, é preciso o real comprometimento de todos (pessoas, empresas, entidades, instituições e governos) com a sustentabilidade.

 
Amaral A C & Jablonski S 2005, Conservação da biodiversidade marinha e costeira no Brasil, Megadiversidade, vol. 1, n°1, pp. 43-51.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2012, Indicadores de Desenvolvimento Sustentável Brasil 2012, acessado em 09 de abril de 2013, http://g1.globo.com/natureza/rio20/noticia/2012/06/uso-de-fertilizante-no-brasil-mais-que-dobra-em-8-anos-diz-ibge.html

Millennium Ecosystem Assessment 2005, pp. 1-41. In Ecosystems and Human Well-being: Biodiversity Synthesis. World Resources Institute, Washington, D.C.
 
Presidência da República Casa Civil Subchefia para Assuntos Jurídicos (CCivil) n.d. d, Lei N. 9.985, de 18 de julho de 2000, acessado em 17 de abril de 2013, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9985.htm

 

2 comentários:

  1. Cara Marília Fonseca:
    Parabéns pela sua postagem sobre conservação da biodiversidade. Aborda aspetos interessantes da temática, dando-nos uma visão muito interessante da legislação brasileira, não muito diferente da adotada na Europa e em Portugal. As estratégias são similares e passam por objetivos comuns: manter a diversidade biológica e os recursos genéticos, proteger as espécies ameaçadas de extinção, preservar e restaurar a diversidade dos ecossistemas, promover o desenvolvimento sustentável, recuperar e restaurar os ecossistemas degradados e valorizar económica e socialmente a diversidade biológica.
    Uma questão importante que refere (e que eu confesso, nunca tinha visto citada apesar da sua pertinência) é a introdução “de técnicas apropriadas para a redução da captura de fauna acompanhante”. È de facto uma tragédia ambiental, quando, por exemplo, vemos vídeos como os colocados pela Doutora Sónia Seixas (Recursos Marinhos), no arrasto. Esta sua referência fez-me recorrer á Internet no sentido de saber mais sobre o assunto. Após ligeira consulta concluí que não é um assunto muito tratado em Portugal, ao contrário do seu país onde parece ter um grande impacto na pesca de arrasto dirigida ao camarão sete-barbas (principalmente, mas não só). Segundo Cattani, et al, (2012) esta pesca causa um grande impacto pois fragmenta os “habitats de espécies bentónicas de substrato inconsolidado e pela mortalidade de fauna acompanhante”, isto é de organismos vivos sem interesse comercial que acompanham a captura das espécies alvo do processo. Esta constatação tem conduzido a algumas alterações, como por exemplo a limitação geográfica e temporal da atividade, alteração nos processos de operação e após captura a utilização de práticas tecnológicas para permitir a evasão dos organismos acompanhantes e a seleção das capturas. (Cattani, et al. 2012).
    O Instituto de Pesca (2005) afina pelo mesmo diapasão ao afirmar que na pesca por arrasto, devido á baixa capacidade seletiva desta modalidade, a fauna que acompanha a espécie alvo é devolvida ao mar por falta de valor económico, acabando por morrer, num processo apelidado de “rejeição” ou “descarte”, sendo esta rejeição uma das preocupações da FAO, plasmada no seu “Código de conduta para a pesca responsável” (FAO,1994) pois constitui um enorme desperdício de proteínas.
    Esperemos que também, neste aspeto, o homem corrija os seus procedimentos e minimize rapidamente este verdadeiro crime ambiental.
    Há, como diz e muito bem, “uma grande variedade de estratégias, programas, ações e comportamentos” em execução, tendentes a limitar e se possível reabilitar a diversidade que, nunca como no último século se viu tão ameaçada pelas atividades antropogénicas, que têm contribuído para potenciar as ameaças naturais, num processo colaborativo que tem custado caro ao Planeta.
    Desde a primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente Humano da ONU, realizada em Estocolmo que deu lugar á criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), com sede em Nairobi, que o homem sentiu necessidade de colocar o enfoque da sua ação nos problemas ambientais e na conservação da natureza, levando a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), fundada em Fonainebleau, em 1948 a elaborar em conjunto com o PNUMA e o Fundo Mundial para a Vida Silvestre (WWF), a chamada Estratégia Mundial para a Conservação da Natureza, nos anos oitenta. (Guiménez, R. 2010)
    Foram os primeiros passos de um caminho que ainda hoje continua e continuará enquanto houver homens na Terra, que teve muitas etapas, encontros e desencontros, avanços e recuos (infelizmente mais recuos que avanços).
    O homem está na Terra há 2,5 milhões de anos e apesar da extinção das espécies ter superado a sua criação, conseguimos a nossa sobrevivência que depende da sobrevivência da biodiversidade cuja conservação ainda está integralmente nas nossas mãos. (Costa, s. d.)

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  2. Referências:
    Cattani, P., Bernardo, C., Medeiros, R., Santos, L., Cpach, H. (2012). Bol. Ins. Pesca. Avaliação de dispositivos para redução da ictiofauna acompanhante na pesca do arrasto dirigida ao camarão sete-barbas. São Paulo, 38 (4): 333-348. Acedido em 20/04/2013
    Costa, M. (s.d.). Biodiversidade. (Power Point). Instituto de Oceanografia. Acedido em 15/04/2013.
    Giménez, R. (2010). La Estratégia Mundial para la Conservación de la Naturaleza. Vol. 3., N.º 129. Universidad de Málaga. Acedido em 15/04/2013.
    Instituto das Pescas. (2005). Pescado rejeitado pode comprometer o equilíbrio ambiental de áreas de pesca. Governo do Estado de São Paulo. www.pesca.sp.gov.br Acedido em 20/04/2013.

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